segunda-feira, 3 de março de 2014

Meerassmie. E você?

Rasmié Moussa Al Sayeg. Esse é o nome de batismo da matriarca paterna de minha família. Mãe da mãe de meu pai, minha bisavó.

Nasceu em 24 de dezembro de 1891, no Líbano. De 1891 é, também, a tela do artista pré-rafaelino Edward Burne-Jones, Sponsa de Libano (A noiva de Líbano). Inspirada num poema bíblico, retrata a contradição de uma mulher virginal, sendo inspirada por personificações femininas de aspecto selvagem.



De certa forma, selvagem é o retrato da personalidade de minha bisavó, que os mitos familiares e as brumas da memória pintaram sobre ela. É a imagem que chegou para mim.

Em algum momento de sua vida, essa mulher mistério (e qual mulher não é?) deixou o Líbano para trás e veio semear vida e história nesse meu país, o Brasil. Morou no Rio de Janeiro, onde veio a falecer em 13 de agosto de 1969.

Se eu trago a poesia que invoca o mistério e a contradição para o ano do nascimento de minha bisavó, eu resgato a força, e também a contradição, de 1969, para o ano de sua morte.

Foi em 1969 que o mundo acompanhou o sonho se tornando realidade: "Um pequeno passo para o homem, um salto gigantesco para a humanidade". De lá, a terra era um belo, mas insignificante ponto azul. Ignorantes dessa insignificância e da raridade de nossa existência, por aqui o mundo estava dividido em dois, disputando o poder, sobre o temido “Botão Vermelho”, numa triste queda de braço. 

A Bomba Derradeira nunca explodiu. O mundo em convulsão redesenhou seu mapa e no meio desse processo eu nasci, em 1978.

Nunca convivi com minha bisavó. Quase uma década separa o dia em que eu deixei a Terra do Antes do dia em que minha bisa voltou para o mesmo lugar. Por isso, são apenas as histórias que a gente inventa e reinventa (como diria Rosa) que nos aproximam.

Pra mim, veio essa mulher excêntrica, que da necessidade de se comunicar em um país estrangeiro, se apresentava como Meerassmie. Gosto de pensar em mim como essa mulher cheia de contradições férteis de potência, guardando em si o poder de criar e destruir. Gosto de pensar em mim como essa mulher-mistério. Gosto de pensar em mim como essa mulher desconcertante, feminina e louca, sim, louca por ousar ser única.

Muitas vezes, quando extrapolo a curva daquilo que é considerado normal, meu pai se refere a mim assinalando que sou  ‘muito "Meerassmie"’. Eu gosto. Meerasmie é meu projeto em construção. Provavelmente meu projeto mais importante: o percurso de mim mesma.

Vocês estão convidados a percorrer comigo esse percurso, acompanhando esse meu blog.

Eu ainda não falei, mas ouvi contar que minha bisavó mistério levava seus fartos e longos cabelos amarelados presos em um imenso coque no alto da cabeça, e no braço esquerdo ostentava uma mitológica sereia tatuada. Essa sereia sou eu. Eu sei. 


As sereias eram criaturas temidas, sua beleza física só perdia para o seu canto extraordinário. Chegaram pra nossa cultura representando a sensualidade e a sexualidade. Segundo a lenda, a única forma de derrotar uma sereia seria cantando mais docemente do que ela. Mas não se engane, se o canto da sereia é perigoso, seu silêncio é ainda mais daninho.

Quem me conhece sabe que eu amo sereias, acho o mito, as fantasias e as imagens que evocam, fascinantes. É por isso há alguns anos nutro a vontade (ainda não concretizada) de tatuar uma sereia nas costas.

Isso foi antes de saber da tattoo da minha bisa. Quando soube afinal, comecei a acreditar que os desejos atravessam gerações como uma espécie de inconsciente coletivo familiar.

Se eu vou fazer uma tatuagem de sereia? Isso é o menos importante, não acha?

"Mirasmié" era uma palavra que nunca foi escrita e a única grafia que me vem em mente é esta que dá nome ao blog e ao meu conceito de vida: Meerassmie.

Meerassmie é a expressão da liberdade individual. Meerassmie é a beleza desta expressão. Vem comigo.

Meerassmie. E você?